Moda africana se destaca por unir ancestralidade e maximalismo

Marcado pela diversidade cultural e por antigas rotas comerciais, o continente africano se consolida como uma potência da moda global

Por Marcos Pacheco

O continente africano é considerado por muitos historiadores o berço da humanidade, por abrigar civilizações e costumes milenares. Entretanto, além de sua relevância histórica, a região mantém uma relação pujante com a moda, impulsionada principalmente por sua diversidade cultural, formada por povos e comunidades distintos, e por sua localização estratégica entre algumas das mais importantes rotas comerciais do mundo, o que favoreceu o intercâmbio com outras nações. Em 2026, impulsionada pelas redes sociais e por eventos como a Copa do Mundo, a moda africana passou a ganhar ainda mais destaque, despertando a curiosidade, sobretudo, do público ocidental.

África e a moda

A relação da África com a moda é muito mais antiga do que se imagina. Berço de antigos impérios e cortes reais, além de palco de tradições ancestrais e passagem de importantes rotas comerciais transcontinentais, o continente africano reúne vestimentas carregadas de história, que comunicam status, espiritualidade, filosofias e riquezas materiais e imateriais.

Com a Copa do Mundo 2026, as seleções africanas também chamaram a atenção por seus trajes, como foi o caso do Congo, que elegeu um visual assinado pelo designer Alvin Mak. A produção, marcada por detalhes estampados, ajudou a destacar a equipe entre as demais delegações.

Entretanto, não é só no Congo que a moda é pulsante. No continente, Nigéria, Senegal e Gana se destacam como potências do setor, influenciando não apenas a cena regional, mas também o cenário internacional.

Multiculturalismo nigeriano

Abrangendo diferentes sociedades, a Nigéria reúne referências das culturas iorubá, beninense, hauçá e igbo em suas criações. As marcas nigerianas costumam apresentar peças com contas de coral e roupas adornadas com bronze, elementos que remetem a antigas hierarquias sociais. O vestuário do país é marcado pela riqueza de texturas, pelo simbolismo e pelo trabalho artesanal.

O luxo de Senegal

Senegal é um dos países responsáveis pela formação da moda de luxo na África Ocidental, incorporando técnicas de bordado, tingimento com índigo e confecção de peças fluidas. As marcas senegalesas se destacam pela elegância, pelo conforto e pela riqueza simbólica de suas criações. Além disso, o boubou, túnica tradicional da região, tem origem na cultura senegalesa e se espalhou por diferentes partes do continente africano, além de também ser encontrado em regiões do Oriente Médio.

Padronagem reconhecida de Gana

Uma das maiores contribuições de Gana para a moda africana é o tecido kente, caracterizado pelas cores vibrantes e formas geométricas, além de ser confeccionado artesanalmente. Suas padronagens codificam mensagens filosóficas, valores de liderança e narrativas históricas, sendo utilizadas em peças de luxo, trajes acadêmicos e cerimônias políticas. Desde 2024, o kente é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO.

Dandismo do Congo

Além do traje viral da Seleção Congolesa, o Congo possui uma identidade muito autêntica na moda africana. O país se destaca pelo movimento dândi conhecido como La Sape, sigla para Sociedade dos Animadores e Pessoas Elegantes.

A subcultura é marcada por uma elegância exuberante, com ternos de grifes europeias, cores vibrantes e acessórios maximalistas. Mais do que uma escolha estética, o movimento também comunica resistência e tem suas origens no período de colonização do Congo pela França e pela Bélgica. Essa identidade também se faz presente em algumas marcas congolesas.

Conexão com o Brasil

A relação entre o Brasil e a moda africana está profundamente presente no cotidiano e nas marcas brasileiras. Herança do período escravocrata, a cultura brasileira recebeu forte influência das populações negras trazidas de regiões como Nigéria, Benin, Angola e Moçambique. Alguns dos principais símbolos dessa conexão são os turbantes, os búzios, as miçangas, os acessórios maximalistas e o uso de metais.

As marcas que incorporam referências africanas em suas criações costumam apostar em cores vibrantes e contrastantes, estampas geométricas e silhuetas fluidas. Atualmente, entre as etiquetas que se destacam por promover esse intercâmbio entre África e Brasil estão as baianas Meninos Rei, Dendezeiro, Ateliê Mão de Mãe e a designer Isa Silva.

Preconceito como obstáculo

Apesar de sua enorme riqueza cultural, o continente africano ainda enfrenta muito preconceito, o que contribui para que suas criações sejam subestimadas em relação à de outras regiões consideradas capitais da moda. Como consequência de processos de colonização e de divisões territoriais forçadas, diversos países enfrentam conflitos étnicos, sociais e políticos. Atualmente, nações como Mali, Congo, Nigéria e Moçambique convivem com diferentes níveis de instabilidade, incluindo conflitos armados e crises políticas.

Tais situações impactam a forma como outras nações enxergam a África. O estilista da Seleção Congolesa, Alvin Mak, afirma que, embora realidades como guerra, violência e doenças, a exemplo do Ebola, estejam presentes no Congo, elas não definem a cultura do país.

“Embora essas realidades existam, elas não definem nossa cultura. Meu desejo era mudar a imagem e a percepção do meu país por meio da minha arte, mostrar e promover a cultura congolesa, as habilidades artesanais e também contribuir para a geração de empregos no Congo”, afirma o designer.

DEMOCRACIAS

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