Quando tomei posse, o dirigente máximo da unidade em que eu estava chegando disse uma coisa que ficou martelando na minha cabeça e que, mais de duas décadas depois, continua lá: “Ninguém te convidou. Você veio porque quis. Chegou aqui com seus próprios méritos e limitações. Parabéns e boa sorte.”
Assinei um pedaço de papel e cá estou até hoje.
Nada poderia ter sido mais preciso.
Então começo por aí: parabéns e boa sorte. Imagino que vocês já tenham ouvido bastante a primeira parte nos últimos meses; quanto à segunda, talvez ainda não saibam exatamente o quanto ela será necessária. Não porque estejam entrando numa instituição particularmente hostil, nem porque ser autista torne alguém menos preparado para estar aqui, mas porque uma carreira de cerca de trinta anos contém uma quantidade razoável de coisas que nenhum edital, curso de formação ou manual consegue antecipar.
Também sou autista, embora isso provavelmente diga menos sobre o que temos em comum do que muita gente imagina. Eu apenas cheguei antes, bem antes, e hoje estou mais próximo da aposentadoria do que vocês estão da primeira promoção. Quando entrei, praticamente não se falava em autismo adulto e eu mesmo só descobriria que era autista muitos anos depois. O autismo, evidentemente, já estava lá; o reconhecimento legal como deficiência, não. Isso só aconteceria em 2012, e daí até o autismo deixar de ser visto como incompatível com uma carreira policial o caminho seria ainda mais longo.
E estou longe de ser uma exceção. Ao longo dos anos vi vários colegas receberem o diagnóstico já adultos e, sendo bastante honesto, nenhum deles chegou a ser exatamente uma surpresa. Alguns de vocês provavelmente entendem o que quero dizer. Durante muito tempo estivemos por aqui sem saber por que certas coisas pareciam exigir de nós um esforço que não víamos nos outros.
Vocês chegam numa situação diferente. Sabem que são autistas e entram numa instituição que também sabe disso desde o primeiro dia, o que não é pouca coisa. Mas não confundam reconhecimento com preparo. A casa ainda sabe pouco sobre vocês e, provavelmente, vocês também ainda têm muito a descobrir sobre como o próprio autismo vai aparecer ao longo de uma carreira tão peculiar.
Não existe uma maneira autista de ser policial, assim como não existe uma experiência única do autismo. Compartilhamos algumas características, não uma vida. Cada um vai descobrir suas facilidades, seus limites, suas estratégias e, principalmente, o preço de algumas delas.
Sobreaviso, para mim, talvez seja um bom exemplo. Quando estou de sobreaviso, não espero ser acionado: eu me aciono. Na verdade, eu procuro trabalho. Conheço praticamente de cor os voos nacionais e internacionais que chegam e saem da minha cidade, acompanho as notícias para ver o que pode acabar chegando até nós e, quando alguma coisa chama minha atenção, ligo para o plantão para saber se já estão acompanhando e se preciso ir. Pode parecer um jeito bastante estranho de cumprir um sobreaviso, e provavelmente é, mas foi a forma que encontrei de lidar com algo que, para mim, pode ser mais difícil do que trabalhar: esperar sem saber se vou precisar trabalhar.
No papel, posso passar horas de sobreaviso sem que nada aconteça. Na prática, passei boa parte delas procurando saber se alguma coisa estava para acontecer.
Vocês provavelmente desenvolverão suas próprias estratégias, algumas tão eficientes que ninguém perceberá que são estratégias, talvez nem vocês. Guardem apenas uma coisa: conseguir fazer algo, e até fazê-lo muito bem, não significa que aquilo não tenha custo.
Nos próximos anos vocês ouvirão bastante sobre inclusão, adaptação, acessibilidade e neurodiversidade. O problema começa quando alguém imagina que basta descobrir quais são “as adaptações do autista”, colocá-las numa norma e considerar o assunto resolvido.
Quando uma pessoa em cadeira de rodas encontra uma escada, conseguimos enxergar a barreira, construir uma rampa e verificar se o acesso passou a existir.
Para autistas não existe rampa de acesso.
Existem autistas.
Para um, a barreira pode estar no ruído; para outro, na imprevisibilidade; para outro, nas mudanças sucessivas de ambiente; para alguém, em dividir um quarto numa missão. Para outro autista, nada disso será especialmente relevante e haverá outras coisas que eu sequer saberia imaginar. Compartilhar um diagnóstico não significa compartilhar as mesmas barreiras, muito menos precisar das mesmas adaptações.
Uma carreira é longa. Haverá sobreavisos, missões, viagens, mudanças de escala, de equipe, de setor, de sala e de chefia. Algumas serão inevitáveis; outras, perfeitamente evitáveis. Algumas serão comunicadas com antecedência e outras chegarão num “a partir de amanhã” que alguém poderia perfeitamente ter dito uma semana antes. Para quem decidiu, talvez seja apenas uma mudança administrativa. Para vocês, talvez não.
Não faz muito tempo, fui trocado de sala seis vezes em cerca de dois anos, algumas delas, inclusive, na tentativa de melhorar meu espaço de trabalho. Uma sala maior ou mais bem localizada parece, naturalmente, uma mudança para melhor; para mim, depois que me adapto a um ambiente, permanecer nele pode ser muito mais importante. Hoje consigo explicar isso e, em geral, consigo me fazer entender, mas levei tempo para aprender. Vocês provavelmente terão suas próprias versões dessa conversa: coisas aparentemente banais para os outros que têm um peso diferente para vocês e que precisarão aprender a explicar sem esperar que sejam óbvias para quem nunca as viveu.
Em missões, talvez vocês passem o dia inteiro trabalhando e depois tenham de dividir o quarto com alguém que não conhecem, que ronca, dorme em outro horário ou simplesmente tem uma rotina incompatível com a de vocês. Nada disso é exclusividade nossa e qualquer pessoa pode achar a situação insuportável. Eu mesmo passei muitos anos acreditando que a diferença era apenas de tolerância: os outros aguentavam e eu precisava aprender a aguentar também.
Só muito depois entendi que estar diante da mesma situação não significa necessariamente experimentar a mesma coisa e que existe um ponto em que, para alguns de nós, já não se trata de incômodo ou preferência, mas de conseguir continuar funcionando.
Com o tempo vocês aprenderão a reconhecer melhor esses limites e, quando possível, a encontrar soluções bastante simples: trocar de quarto, pedir um quarto individual, eventualmente pagando a diferença, ou encontrar outra solução que funcione para vocês. Nem sempre será possível, claro. Faz parte da profissão. Mas conhecer o próprio autismo também é aprender quando vale a pena pedir uma adaptação antes de chegar ao limite.
Haverá também reuniões, muitas delas necessárias e outras porque alguém achou mais simples reunir cinquenta pessoas do que conversar com cinco grupos de dez. Para alguns de vocês, uma reunião chata poderá vir acompanhada de gente falando ao mesmo tempo, telefone tocando, conversa paralela, movimento, luz, alguém batendo uma caneta na mesa e o esforço adicional de descobrir, no meio de tudo aquilo, qual informação realmente importa.
Separadamente, quase tudo parece pequeno. O problema é que uma carreira não acontece separadamente. Ela acontece todos os dias, ao longo de cerca de trinta anos.
Vocês vão encontrar todo tipo de gente dos dois lados do balcão. Do lado de fora, lidarão com pessoas agressivas, arrogantes, manipuladoras, desonestas ou simplesmente difíceis; algumas estarão vivendo um dos piores dias de suas vidas, outras serão apenas pessoas com quem é difícil lidar. Faz parte da profissão.
Do lado de cá não será tão diferente. Vocês encontrarão colegas extraordinários, gente competente e generosa, pessoas que ajudarão sem fazer propaganda disso e amizades que talvez durem uma vida inteira. Encontrarão também pessoas com quem será difícil trabalhar, chefes que compreenderão vocês e outros que não compreenderão, decisões que parecerão injustas e situações em que talvez vocês próprios estejam errados. Ser autista não nos torna automaticamente mais razoáveis, assim como ser neurotípico não torna ninguém menos capaz de nos compreender.
Ao longo de uma carreira, vocês aprenderão que compreensão não vem necessariamente de onde imaginamos. Algumas das pessoas que melhor me compreenderam não sabiam praticamente nada sobre autismo; simplesmente ouviram quando expliquei o que precisava. Outras sabiam muito mais e nem por isso conseguiram enxergar a pessoa que estava na frente delas. Isso importa porque muitas adaptações não dependem de orçamento, obra ou tecnologia, mas de algo bem mais simples e, às vezes, bem mais difícil: duas pessoas conseguirem conversar sem partir da certeza de que já sabem o que a outra está vivendo.
Talvez exista aí uma coisa sobre a qual ainda falamos pouco: crianças autistas crescem. Tornam-se adolescentes e depois adultos que continuam sendo autistas. Trabalham, formam famílias, envelhecem e passam décadas em instituições como esta.
Ter um filho autista, um irmão autista ou um amigo autista não significa conhecer o adulto autista que trabalha ao seu lado. Conhecer um autista significa exatamente isso: você conhece um autista.
No meu caso, nunca fiz segredo depois que soube. Falei abertamente sobre o diagnóstico e continuo falando. Mudou alguma coisa? Claro que mudou. Talvez essa tenha sido uma das coisas mais curiosas do diagnóstico tardio: eu continuei sendo exatamente a mesma pessoa que já trabalhava ali havia anos, mas algumas pessoas passaram a me enxergar de outra maneira depois que aquilo ganhou um nome. Antes eu podia ser esquisito, difícil, metódico, intenso, rabugento ou qualquer outro adjetivo escolhido ao longo dos anos; depois, algumas dessas mesmas características passaram a ser lidas a partir do diagnóstico.
Às vezes ser o sujeito esquisito é socialmente mais simples do que ser o sujeito autista.
Depois que o diagnóstico entra na sala, existe o risco de ele começar a chegar antes de vocês. Uma discordância pode virar rigidez, uma necessidade pode parecer privilégio, uma dificuldade pode ser confundida com incapacidade e uma característica que antes era apenas uma peculiaridade passa a ter uma explicação pronta.
Nem sempre haverá má-fé nisso. Deficiências invisíveis ainda são novidade para muita gente, e todos estamos aprendendo, alguns mais depressa do que outros, a lidar com algo que durante muito tempo sequer enxergávamos.
Vocês provavelmente também farão masking, cotistas ou não. Ninguém passa oito ou dez horas por dia numa instituição hierarquizada sendo integralmente espontâneo, mas para alguns de nós isso vai além da formalidade profissional. Talvez vocês aprendam quando falar, quando ficar quietos, quais reações esconder, quais perguntas não fazer e como parecer perfeitamente bem quando não estão.
O problema particularmente eficiente do masking é que ele funciona.
Vocês trabalham, conversam, participam de reuniões, resolvem problemas, fazem alguma piada e vão embora parecendo perfeitamente bem. Depois chegam em casa e não querem conversar, decidir, responder ou ouvir mais nada. Dormem e voltam no dia seguinte para fazer tudo outra vez.
Talvez isso nunca aconteça com alguns de vocês. Se acontecer, prestem atenção. Suportar não é a mesma coisa que estar bem, e ser competente não significa ser inesgotável. Com o tempo essa diferença importa mais: a recuperação pode demorar mais e aquilo que aos trinta parecia apenas cansativo talvez aos cinquenta cobre outro preço.
Também não confundam adaptação com conforto. Vocês escolheram uma profissão que envolve pressão, emergência, imprevisibilidade, missão, conflito e gente difícil. Nem todo desconforto é uma barreira, nem tudo de que vocês não gostam precisa ser adaptado e diagnóstico nenhum elimina responsabilidade profissional.
Existe, porém, uma diferença importante entre aquilo que o trabalho realmente exige e aquilo que fazemos apenas porque sempre foi feito assim. Vocês terão de aprender a distinguir uma coisa da outra.
A instituição também terá de aprender. Profissionais, conhecimento técnico e formação são indispensáveis, mas há uma parte dessa conversa que só aparece quando se escuta quem vive o autismo no trabalho todos os dias. Talvez uma das coisas que vocês possam trazer para a casa seja justamente isso: não respostas sobre “como são os autistas”, mas experiências concretas sobre como cada um de vocês trabalha, o que funciona, o que não funciona e por quê. Não para substituir o conhecimento técnico, mas para colocá-lo em contato com a vida real.
E aqui vocês chegam com uma vantagem que nós, diagnosticados tardiamente, não tivemos.
Vocês entram pela porta da frente. Entram com laudo, com direitos reconhecidos e com uma condição que a instituição conhece desde o primeiro dia. Ninguém os convidou, ninguém lhes deu a vaga e ninguém lhes fez favor algum. Vocês chegaram por seus próprios méritos, dentro das regras da casa.
Nós já estávamos aqui quando descobrimos.
Para muitos de nós, junto com o diagnóstico veio uma pergunta bastante simples de formular e bem menos simples de responder: e agora?
Não sabíamos exatamente como a instituição reagiria, quais direitos tínhamos, o que seria razoável pedir ou até se deveríamos dizer alguma coisa. No meu caso, escolhi falar. Outros fizeram escolhas diferentes. E provavelmente ainda existem colegas por aí que não sabem que são autistas ou que sabem e preferem guardar essa informação para si.
É por isso que a chegada de vocês importa também para nós.
Vocês são muito mais visíveis do que fomos. Chegam fazendo perguntas que muitos de nós nem sabíamos que podíamos fazer e ocuparão espaços em que a presença de um autista já não poderá ser tratada como hipótese. A casa terá de aprender com vocês.
Nós também.
Em compensação, conhecemos uma instituição que vocês ainda estão começando a conhecer. Sabemos um pouco sobre seus caminhos, suas virtudes, suas contradições, suas burocracias e sobre aquela misteriosa diferença entre o que está escrito e o que realmente acontece numa terça-feira qualquer.
Vocês podem nos ajudar a entender o que significa chegar aqui já sabendo que são autistas. Talvez nós possamos ajudá-los a não precisar descobrir tudo sozinhos.
Essa me parece uma troca bastante justa.
A casa ainda não está minimamente preparada para vocês. Não digo isso como acusação. Durante muito tempo praticamente não se falava em autismo adulto e agora a instituição terá de aprender coisas para as quais não existe manual pronto.
Vocês também terão de aprender.
Não espero que cheguem exigindo que a casa se transforme ao redor de cada necessidade individual, assim como espero que a casa não os receba exigindo que escondam cada diferença para caber nela. Entre essas duas coisas existe um espaço enorme, feito de conversa, bom senso, tentativa, erro e, principalmente, conhecimento da pessoa que está na nossa frente.
Vocês não são um problema institucional a ser resolvido, nem uma categoria administrativa à qual basta associar meia dúzia de adaptações. São policiais que chegaram para trabalhar. Espero que trabalhem muito, aprendam, errem, acertem, assumam responsabilidades, descubram aquilo em que são bons, façam amigos, encontrem gente extraordinária e aproveitem as oportunidades que esta casa oferece, porque ela oferece muitas.
Só não gastem boa parte da carreira tentando provar que conseguem suportar tudo.
Estou mais perto da aposentadoria do que vocês estão da primeira promoção. Isso não me torna mais sábio e muito menos me autoriza a dizer como cada um deve viver a própria carreira. Dá apenas uma vantagem bastante objetiva: eu sei quanto tempo vinte anos levam.
E sei que algumas coisas que parecem pequenas no primeiro ano deixam de ser pequenas quando repetidas durante uma vida profissional inteira.
Vocês chegam sabendo algo sobre si mesmos que muitos de nós descobrimos tarde. Usem essa informação. Não como desculpa, não como explicação para tudo e muito menos como limite antecipado, mas como informação sobre vocês mesmos. A instituição, por sua vez, terá de aprender a lidar com ela sem transformar diagnóstico em incapacidade ou adaptação em favor.
Talvez seja por isso que aquela frase do dia da minha posse continue comigo depois de tanto tempo. Eu não fui convidado. Cheguei aqui com meus próprios méritos e limitações.
Vocês também.
Seria muito mais fácil se inclusão significasse identificar uma barreira, construir alguma coisa e considerar o problema resolvido.
Mas não existe rampa de acesso para autistas.
Existem autistas.
Sobre o autor
Franco Perazzoni
Doutor em Sustentabilidade Social e Desenvolvimento (UAb/Portugal), concluiu pós-doutorados em Políticas Públicas (ENAP) e Direitos Humanos, Saúde e Justiça (IGC & POSCOHR, Coimbra/Portugal). Com formação interdisciplinar, desenvolve estudos na interface entre Direito, Tecnologia, Ambiente e Governança. Professor e pesquisador voluntário na UnB. Delegado de Polícia Federal.
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