Em meio a turbulências, o filho mais velho de Jair Bolsonaro (PL) enfrenta obstáculos importantes neste início oficial da campanha, com dificuldades para avançar entre as mulheres — que são a maioria do eleitorado —, trocas públicas de farpas com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e seu nome atrelado ao escândalo do Banco Master.
Na quinta-feira (23/7), o senador publicou um vídeo em suas redes sociais pedindo novamente desculpas a Michelle e convidando a mulher do pai para “caminharem juntos”. Poucas horas depois, a ex-primeira-dama respondeu também em vídeo nas redes, aceitando as desculpas do enteado.
Para o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, o gesto de Flávio foi importante. “O principal é o efeito simbólico desse processo, que mostra a ideia do Flávio moderado, que recua”, diz.
“O segundo ponto é a potencial entrada de Flávio no eleitorado feminino e evangélico”, aponta Cortez, referindo-se a dois grupos do eleitorado com os quais Michelle tem uma boa interlocução.
A necessidade do aceno foi alertada pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que disse, dias antes, que Michelle estava esperando por um gesto público do enteado para apoiá-lo. O vídeo de Flávio foi por fim publicado, dois dias depois que a senadora Tereza Cristina (PP-MS) recusou o convite para ser vice dele.
Na mesma esteira, a federação União Progressista, formada pelos partidos União Brasil e Progressistas, decidiu manter-se neutra em relação ao apoio a Flávio, liberando os diretórios estaduais para definirem seus posicionamentos. Foi um revés das siglas que fazem parte da espinha dorsal do Centrão.
O Republicanos, do governador paulista, Tarcísio de Freitas, e também considerado do Centrão, pode seguir pelo mesmo caminho.
Perdeu a classe média’
Teixeira acredita que Flávio decidiu radicalizar o discurso depois de ter seu nome atrelado ao escândalo do Banco Master.
Em maio, foram vazadas mensagens em que o senador pedia dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Até então, Flávio sustentava um discurso de associação do escândalo Master com o PT e a esquerda.
“Ele começou a radicalizar depois disso, porque ali ele perdeu a classe média”, afirma Teixeira.
As revelações foram um balde de água fria na campanha de Flávio, que chegou a ultrapassar Lula por um breve período em março, mas viu seu desempenho cair logo em seguida.
Nessa esteira, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou dois vídeos no fim de junho com ataques diretos ao enteado, acusando-o de desrespeito, dizendo que o senador a “maltratou” e tratou seu apoio como “insignificante”.
Mais recentemente, ele afirmou em uma entrevista ao podcast Flow que, se Michelle não fosse a mulher de seu pai, “acho que não teria chegado nesse ponto”. “A gente teria estancado antes.”
O epicentro do conflito entre Michelle e Flávio é o Ceará. A ex-primeira-dama criticou diretamente a intenção do PL de apoiar Ciro Gomes (PSDB) na disputa pelo governo estadual, decisão que, segundo Flávio Bolsonaro, contaria com a aprovação do pai, dentro de uma estratégia para derrotar o PT no Estado, onde o governador Elmano de Freitas (PT) disputará a reeleição.
As críticas de Michelle ocorreram em novembro, durante o evento de lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao governo do Ceará, político bolsonarista com forte discurso conservador.
No dia seguinte, os irmãos Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro criticaram Michelle, e ela foi chamada de autoritária pelo senador.
Nos vídeos de Michelle, ela voltou ao episódio do Ceará, dizendo que sempre atuou com a concordância do marido e chamou as palavras contra ela de “duras” e com “tom agressivo”.
Depois do episódio, Michelle deixou a presidência do PL Mulher. E, se nas eleições de 2022, ela abriu os discursos da convenção que oficializou a candidatura à reeleição de Jair Bolsonaro, agora a situação é muito diferente.
Seu apoio a Flávio, tido como de grande importância, especialmente para atrair o eleitorado feminino, era visto até a quinta-feira como improvável. Agora, ao aceitar publicamente o pedido de desculpas do enteado, a ex-primeira dama reabriu essa possibilidade.
“O nosso propósito pelo bem do povo sempre foi maior do que desentendimentos. Por isso, aceito seu pedido: eu te desculpo”, disse Michelle, em sua mensagem a Flávio. “Vamos sentar e conversar.”
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