Lula no G20: é hora de declarar a desigualdade uma emergência global

Na abertura da Cúpula de Líderes na África do Sul, presidente defende taxação de super-ricos, troca de dívidas por desenvolvimento e ação climática

Por Editoria Democracias

O presidente Lula aproveitou a tribuna da abertura da Cúpula de Líderes do G20, na África do Sul, para lançar um alerta sobre a desigualdade global e a urgência de redesenhar regras e instituições que sustentam essa assimetria. Em sua fala neste sábado (22/11), Lula defendeu o fortalecimento do G20 como fórum de diálogo e criticou a volta de políticas protecionistas e unilaterais.

O líder brasileiro propôs em Joanesburgo mecanismos inovadores, como a troca de dívida por desenvolvimento e ação climática e a taxação dos super-ricos.

Está na hora de declarar a desigualdade uma emergência global. A desigualdade extrema representa risco sistêmico para todas as economias. O G20 deve incentivar a adoção de mecanismos inovadores de troca de dívida por desenvolvimento e por ação climática. O debate sobre tributação internacional e taxação dos super-ricos é inadiável”, afirmou

Lula enfatizou que há uma complementaridade importante entre a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada durante a presidência brasileira do G20 no ano passado, e a iniciativa sul-africana sobre dimensões macroeconômicas da segurança alimentar e dos preços de alimentos. E endossou a proposta da África do Sul de criar um Painel Independente sobre Desigualdade, nos moldes do Painel sobre Mudança do Clima.

O presidente lembrou, contudo, que sem financiamento a Agenda 2030 não passará de declaração de boas intenções. O plano de ação da ONU adotado em 2015 estabelece 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas a serem alcançadas até 2030. O objetivo principal é erradicar a pobreza e promover dignidade a todos, ao mesmo tempo em que se protege o planeta para futuras gerações.

Nesse contexto, Lula criticou o gasto crescente de potências internacionais com armamentos e as consequências humanas, energéticas e alimentares de conflitos bélicos como os na Ucrânia, em Gaza e no Sudão. Reforçou, ainda, que a questão da dívida de países do Sul Global é “eticamente inaceitável e economicamente insustentável”.

No ano passado, a economia mundial cresceu mais de 3%. Os gastos com armamentos aumentaram 9,4%. Mas a ajuda oficial ao desenvolvimento caiu 7%. A conta é simples: existe um fluxo de capital negativo, que vai dos países do Sul para os países ricos do Norte global. Quase metade da população mundial vive em países que gastam mais com o serviço da dívida do que em saúde ou educação”, lembrou o presidente

Disparidades

Lula, que esteve na primeira Cúpula do G20 em 2008, rememorou o contexto da criação do fórum, para enfrentar consequências do neoliberalismo, como a desregulamentação dos mercados financeiros, os paraísos fiscais e a urgência em reformar as instituições de Bretton Woods. Segundo o presidente, as intervenções à época foram importantes, mas incompletas, e levaram a uma trajetória que aprofundou disparidades. “Enveredamos por uma trilha que repetiu a receita de austeridade como fim em si mesmo, que aprofundou desigualdades e ampliou tensões geopolíticas.”

Caminhos

Diante do quadro, Lula citou que o protecionismo e o unilateralismo ressurgiram como respostas fáceis, mas falaciosas para a complexidade da realidade atual, e propôs como caminho para soluções efetivas preservar a capacidade de fóruns multilaterais, como o G20, de tratar grandes temas da atualidade. “Nenhum país tem condições de prosperar em isolamento. As soluções que buscamos estão ao redor desta mesa”, concluiu.

Contexto – Criado em 1999, após a crise financeira asiática, o G20 se tornou uma Cúpula de Chefes de Estado e de Governo em 2008. Atualmente, representa mais de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, 75% do comércio internacional e 60% da população do planeta.

Prioridades

A África do Sul conduz os trabalhos do G20 sob o lema “Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade”, com quatro prioridades: Fortalecimento da resiliência e capacidade de resposta a desastres; Sustentabilidade da dívida pública de países de baixa renda; Financiamento para a transição energética justa; e Minerais críticos como motores de desenvolvimento e crescimento econômico.

Comércio

Os países do G20 desempenham papel fundamental nas redes globais de comércio. Eles não apenas são grandes exportadores e importadores, mas destinos frequentes de exportações uns dos outros. Em 2005, o total exportado pelo G20 foi de US$ 8,2 trilhões. Já em 2021, chegou a US$ 17 trilhões, crescimento de 107%.

Exportação

Entre os principais produtos comercializados pelos integrantes do G20 estão manufaturas, como veículos automotivos, eletrônicos e maquinaria industrial; produtos agrícolas, como cereais, carne e frutas; e commodities, como petróleo, gás natural, minérios e metais. O Brasil exporta a integrantes do G20 aeronaves, petróleo e materiais relacionados, ferro, aço, minérios metálicos e produtos diversos do agronegócio.

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