As 5 figuras que moldaram a Independência do Brasil

(SP) O 7 de setembro reacende o debate sobre quem, de fato, construiu a ruptura com Portugal em 1822 e por que a história oficial concentra o protagonismo em um único nome

Por Marcos Pacheco

Cena do Grito do Ipiranga

O calendário cívico brasileiro reserva a primeira semana de setembro para lembrar o processo de emancipação política do país. Instituída por decreto federal ainda na primeira metade do século XX, a Semana da Pátria vai de 1º a 7 de setembro e tem no Grito do Ipiranga seu ponto auge.

Mas reduzir a Independência a um único gesto, tomado por uma única pessoa às margens de um riacho em São Paulo, é uma simplificação que a historiografia mais recente vem corrigindo.

Documentos, correspondências e atas de época mostram que a separação entre Brasil e Portugal resultou de uma articulação política, diplomática e até bélica que envolveu nomes menos lembrados nos livros didáticos. A seguir, a CNN Brasil listou cinco figuras cuja atuação ajuda a entender o que estava em jogo naquele mês de setembro de 1822.

1. Dom Pedro I: o herdeiro que rompeu com a própria coroa

Príncipe regente do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Pedro de Alcântara enfrentava, em 1822, pressão crescente das Cortes de Lisboa para retornar à Europa e reduzir o Brasil novamente à condição de colônia.

A recusa em obedecer a essa determinação, somada ao apoio de setores da elite brasileira favoráveis à separação, levou à declaração de ruptura registrada na margem do rio Ipiranga, em 7 de setembro.

A frase que resume o rompimento, “Independência ou Morte!”, tornou-se símbolo oficial do processo e consta em registros de memorialistas que acompanharam a comitiva. Historiadores apontam, no entanto, que a decisão não foi um ato isolado de coragem pessoal, mas o desfecho de meses de correspondência com conselheiros no Rio de Janeiro, que insistiam para que o príncipe não recuasse.

2. José Bonifácio: o articulador por trás do trono

Nascido em Santos, formado na cidade portuguesa de Coimbra e com carreira consolidada como cientista e político em Portugal, José Bonifácio de Andrada e Silva assumiu em 1821 o Ministério do Reino e Estrangeiros ao lado de Pedro de Alcântara.

Foi ele quem estruturou boa parte do projeto administrativo do novo Estado, da organização do primeiro ministério à redação de propostas que discutiam, já naquele momento, o fim gradual da escravidão, pauta que o colocaria em rota de choque com parte da elite agrária.

Em texto apresentado à Assembleia Constituinte sobre a escravatura, Bonifácio deixou registrada a advertência: “ou reformamos, ou a revolução se fará por si mesma, mas então será horrorosa”. A frase, hoje reproduzida em resumos da história política brasileira, ilustra o tom pragmático que valeu a ele o título de Patriarca da Independência, atribuído a ele ainda no século 19 e mantido pela historiografia até hoje.

3. Leopoldina: a assinatura que autorizou a ruptura

Arquiduquesa da Áustria e esposa de Pedro de Alcântara, Maria Leopoldina presidiu, na ausência do marido, o Conselho de Estado no Rio de Janeiro durante a viagem que ele fazia a São Paulo em agosto e setembro de 1822.

Foi nessa condição que ela recebeu os despachos vindos de Lisboa que exigiam o retorno do príncipe e a subordinação do Brasil às Cortes portuguesas.

Registros de arquivo mostram que Leopoldina, junto a José Bonifácio, redigiu correspondência recomendando que o marido não cedesse à pressão portuguesa. Antes de se tornar imperatriz, ela já assinava despachos administrativos como regente interina, um dado que a historiografia especializada em documentos do Primeiro Reinado usa para reposicionar sua participação, tradicionalmente relegada a nota de rodapé nos relatos sobre 1822.

4. Maria Quitéria: a resistência armada na Bahia

Enquanto a corte discutia a separação política no eixo Rio–São Paulo, a Bahia vivia um conflito armado direto. Tropas portuguesas resistiam à adesão da província ao movimento de independência, e o cerco a Salvador só terminou em julho de 1823, quase um ano após o Grito do Ipiranga.

Nesse cenário de guerra, Maria Quitéria de Jesus Medeiros se alistou disfarçada de homem no Batalhão de Voluntários do Príncipe e participou de combates em Cachoeira e Pirajá.

Descoberta sua identidade, foi mantida na tropa por decisão de seus superiores diante do desempenho em campo, episódio documentado em relatórios militares da época e que lhe rendeu, mais tarde, patente honorária concedida por Dom Pedro I. A trajetória de Maria Quitéria é hoje referência obrigatória em qualquer relato sobre a Guerra de Independência na Bahia, um capítulo do processo emancipacionista frequentemente ofuscado pela cena do Ipiranga.

5. Joaquim Gonçalves Ledo: a imprensa que preparou o terreno

Antes de qualquer decisão formal de ruptura, a ideia de separação já circulava impressa. Joaquim Gonçalves Ledo, jornalista e maçom ligado à Loja Comércio e Artes, publicava no Rio de Janeiro artigos favoráveis à autonomia brasileira e à convocação de uma assembleia constituinte nacional, distinta das Cortes de Lisboa.

Sua atuação na imprensa e nas redes políticas da capital ajudou a construir, entre 1821 e 1822, o clima de opinião que sustentou a decisão de Pedro de Alcântara.

Ledo integrou ainda a comissão que redigiu o primeiro projeto de Constituição para o Brasil independente, ao lado de Bonifácio, em uma parceria que, no entanto, se rompeu meses depois por divergências sobre o grau de poder que o novo imperador deveria concentrar.

O episódio é citado por pesquisadores do período como evidência de que o processo de 1822 não teve um roteiro único, mas disputas internas sobre que tipo de país o Brasil deveria se tornar.

Por que essas histórias importam na Semana da Pátria?

Contar a Independência a partir de cinco trajetórias diferentes não diminui o papel de Dom Pedro I, mas explica por que a data de 7 de setembro é, na prática, o desfecho de uma disputa política que começou meses antes e continuou depois, inclusive com conflitos armados que se estenderam por quase um ano em outras regiões do país.

Para quem visita museus e monumentos durante a Semana da Pátria, esse é o tipo de contexto que costuma ficar de fora das legendas oficiais, mas que aparece em acervos como o do Museu do Ipiranga, em São Paulo, e do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, ambos com exposições permanentes sobre o período.

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