Análise: Flávio vai ao ataque, mas tropeça em cobranças de Lula

(SP) No debate da Band, candidato do PL explora temas de apelo popular, mas evita respostas e abre espaço para reação do presidente

Por Marcos Pacheco

O candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro, adotou o ataque e a ironia como estratégia no primeiro confronto contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no debate exibido pela Band neste domingo (18). Porém, a tática encontrou limite nas perguntas incômodas do adversário sobre sua trajetória e suas relações, que ficaram sem resposta.

A postura escolhida para o confronto com Lula também colocou em xeque a versão de um Bolsonaro moderado e adepto do diálogo. O deboche gera cortes para as redes e alimenta a militância, mas contrasta com a imagem que o senador tentou construir ao longo da campanha.

Quem assistiu ao programa para ouvir do próprio Flávio explicações sobre as acusações que pairam sobre ele ficou sem respostas.

Desconfortável com as perguntas de Lula, Flávio recorria a mensagens de fácil compreensão e apelo popular, como custo de vida, segurança pública e punição a criminosos. Mais do que promessas, as propostas funcionaram como saída quando era pressionado.

Assim, Flávio terminou o debate sem responder diretamente às cobranças de Lula sobre o financiamento pelo Banco Master do filme “Dark Horse”, sua atuação como advogado de um policial acusado de atirar em uma menina de cinco anos e a relação com o miliciano Adriano da Nóbrega. Também não explicou se repetirá a política do presidente da Argentina, Javier Milei, e a atuação da família Bolsonaro nos Estados Unidos, apontada pelo presidente como contrária aos interesses do Brasil.

“É notável que a família Bolsonaro está subordinada aos interesses americanos”, disse o presidente, citando a atuação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, nos Estados Unidos.

Flávio passou parte do debate acusando Lula de corrupção, tema mais sensível ao petista. Conseguiu irritar o presidente, no primeiro bloco, com referências à lobista Roberta Luchsinger e suspeitas envolvendo o filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Depois, porém, foi contra-atacado quando Lula propôs que os dois candidatos abrissem os sigilos bancários e telefônicos antes da eleição. “Prove que é honesto”, disse o petista. Flávio não se comprometeu e passou a falar de crime organizado e da proposta Smart Brasil, um sistema de monitoramento digital.

Flávio chegou bem treinado, ocupou o palco e explorou as regras do programa para aparecer atrás de Lula enquanto o presidente falava. A orientação dos estrategistas do PL visava justamente dificultar os cortes da campanha petista para as redes.

Ao exagerar na ironia e nas caras e bocas, chegou a ser comparado ao empresário Pablo Marçal, que disputou a Prefeitura de São Paulo em 2024 e hoje é seu aliado.

O candidato do PL conseguiu, por diversas vezes, irritar o presidente. Lula o chamou de “mentiroso” e o comparou a um “malandro carioca”. O senador aproveitou o escorregão para apresentar uma ofensa dirigida a ele como um ataque à população do Rio. Disse se solidarizar com os “irmãos e irmãs cariocas”.

Na saúde, Lula encontrou uma oportunidade concreta de pressionar o adversário. A promessa de Flávio de oferecer um SUS “padrão Einstein” permitiu ao presidente retomar a condução da pandemia pelo governo Bolsonaro, lembrar as mais de 700 mil mortes e defender o sistema público.

Flávio reconheceu que o governo do pai não foi bem na área. Disse que Bolsonaro “deu seu melhor”, justificou as dificuldades pelo caráter inédito da pandemia e destacou a compra de vacinas. Ao afirmar que “tem Bolsonaro dentro do Lula” porque o presidente se vacinou, buscou uma provocação que pouco acrescentou à explicação sobre a condução da crise.

O candidato do PL, contudo, deixou o debate com a vantagem de ter conseguido pautar o confronto. Mérito não apenas dele, mas também pelo desempenho de Lula, que, por diversas vezes, deixou de explorar as fragilidades do adversário.

O presidente conseguiu colocar Flávio na defensiva, mas não sustentou a pressão e deixou passar oportunidades de fazer novas cobranças. Facilitou, assim, a vida de um candidato que chegou ensaiado para atacar e nada responder.

DEMOCRACIAS

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