Casas Bahia: Entenda como o juro pesa na crise do grupo varejista

Varejista enfrenta crise antiga agravada por juros altos, restrição de crédito e prejuízo de R$ 10 bi no segundo trimestre

Por Marcos Pacheco

O Grupo Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial, conforme anunciado no último domingo (16).

Segundo a companhia, a decisão foi tomada em razão da piora de suas condições financeiras, após um longo período de dificuldades que se acumularam ao longo dos anos.

O grupo registrou um prejuízo líquido de R$ 10 bilhões no segundo trimestre, valor 18 vezes superior ao registrado no mesmo período do ano anterior.

A solicitação já foi aprovada pelo Conselho e também abrange outras empresas ligadas ao grupo.

Crise antiga agravada pelo cenário macroeconômico

A analista de Economia da CNN Lucinda Pinto avalia que o pedido de recuperação judicial não surpreendeu o mercado. “Não foi exatamente uma surpresa porque as Casas Bahia vêm arrastando uma crise já há anos”, afirmou.

Segundo ela, os juros elevados não são os únicos responsáveis pela situação, mas podem ter impedido a empresa de encontrar uma saída. “Talvez tenham sido a situação que impediu a empresa de sair, de encontrar ali uma solução”, explicou.

A varejista iniciou um processo de reestruturação em 2023, quando assumiu Renato Franklin, que retomou o nome Casas Bahia.

Anteriormente, a empresa havia mudado de nome, passando a se chamar primeiro Via Varejo e depois apenas Via, período em que tentou se consolidar como um player relevante no e-commerce, competindo com empresas como Americanas e Submarino.

Endividamento e restrição de crédito

Em 2024, a companhia realizou uma recuperação extrajudicial para tentar alongar uma dívida que, à época, superava R$ 4 bilhões. Apesar de apresentar melhora em indicadores operacionais, como enxugamento de custos e redução do número de lojas, a empresa enfrentou um problema estrutural crítico: a necessidade de liquidez.

“Uma varejista como a Casas Bahia precisa de crédito porque ela vende a prazo e tem um prazo curto para pagar seus fornecedores”, explicou Lucinda Pinto, destacando o descasamento entre recebimentos e pagamentos.

Esse crédito, segundo a analista, secou em razão de um ambiente bancário mais seletivo. Além disso, o público-alvo da varejista — consumidores das classes C e D — é justamente o mais afetado pelo cenário de inadimplência elevada. “É esse consumidor que está tendo dificuldade de pagar suas dívidas”, ressaltou Lucinda.

Números da crise

Os dados financeiros da companhia revelam um quadro desafiador. O prejuízo ajustado — que exclui efeitos extraordinários como o fechamento de lojas — também foi expressivo, chegando a quase R$ 1 bilhão.

A receita líquida no trimestre ficou em quase R$ 7 bilhões, com crescimento modesto de 1,6%. Já o EBITDA, que representa o lucro operacional da empresa, recuou 9,4% na comparação anual.

O total da dívida da companhia soma R$ 17 bilhões, incluindo passivos bancários, trabalhistas e outros tipos de obrigações. Lucinda Pinto lembra, no entanto, que a recuperação judicial é um mecanismo legal que permite à empresa continuar operando enquanto renegocia com seus credores.

“A empresa não faliu, ela continua operando, as suas vendas continuam normalmente, mas ela ganha fôlego para poder renegociar com as pessoas a quem ela deve”, concluiu a analista.

DEMOCRACIAS

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