Por que entender o cérebro pode transformar a forma de aprender?

Especialista Kátia Chedid mostra como memória, hábitos e práticas mediadas por professores contribuem para uma aprendizagem duradoura

Por Editoria Democracias

“Como é possível falar de aprendizagem sem falar do cérebro?” Foi com essa provocação que a pedagoga e especialista em neurociência Kátia Chedid começou a apresentação no palco do Talk Educação do Amanhã, promovido no Sesi Lab, em Brasília (DF), na última segunda-feira (17/11).

Chedid apresentou uma síntese objetiva sobre o papel das funções cerebrais no processo de aprendizagem.

Ao traduzir conceitos científicos para o contexto educacional, destacou como a compreensão do funcionamento cognitivo orienta práticas mais eficazes nas escolas, evidenciando um ponto central: não existe aprendizagem duradoura sem repetição e retomada.

Para a especialista em Neurociência aplicada à Educação, ensinar um conteúdo apenas uma vez, sem revisões estruturadas, não consolida sinapses e, portanto, não cria base para usar o conhecimento no futuro.

Kátia Chedid é líder do Departamento de Governança Educacional da Fundação Bradesco
Segundo a educadora, “aprender significa formar memória de longa duração”. Esse é o tipo de memória capaz de sustentar conhecimentos ao longo da vida e permitir a aplicação em novas situações.

“A memória de longa duração é aquela em que a gente faz relações, resolve problemas e consegue até inventar coisas novas com aquele conteúdo”, ressaltou.

Ao explicar esse mecanismo, Kátia reforçou que a memória é dinâmica e sujeita a interpretações individuais.

Por isso, atividades escolares que se limitam a estimular apenas a memorização imediata (curto prazo), como a devolução exata de conteúdos decorados, não resultam em aprendizagem real e duradoura.

“Se a gente quiser que ele devolva o conteúdo exatamente como a gente passou, a gente não vai conseguir. E se a gente conseguir, a gente vai saber que ele não aprendeu, ele decorou”, afirmou.

Para a especialista, esse equívoco pedagógico ajuda a explicar a sensação de que os alunos “esquecem” rapidamente o que foi ensinado, uma vez que a retenção do conteúdo depende de fatores como motivação, contexto emocional e conexões significativas estabelecidas ao longo do processo.

Por isso, ela defende revisitações frequentes ao material, propostas de situações-problema e mediação ativa, inclusive em práticas simples como orientar o estudante sobre o que realmente vale destacar ao grifar um texto.

Por que aprender cansa? Esforço cognitivo e desenvolvimento neural

Kátia também explicou porque o aprendizado demanda esforço. Embora represente apenas 2% da massa corporal, o cérebro consome cerca de 20% da energia total.

Esse dado, segundo ela, ajuda a compreender a dificuldade em mudar hábitos, o comportamento impulsivo de adolescentes e o cansaço natural decorrente de tarefas cognitivamente complexas.

Além disso, a palestrante abordou o impacto da tecnologia no desenvolvimento cognitivo. De acordo com ela, o problema não é o uso das telas em si, mas a ausência de interações concretas que deveriam acompanhar as etapas de desenvolvimento infantil e adolescente.

Entre as habilidades prejudicadas pela falta de interação presencial, citou autocontrole, tomada de decisão e percepção corporal.

O papel da escola

Na etapa final da palestra, a educadora tratou das funções executivas — memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e controle inibitório — habilidades que permitem planejar, regular impulsos e tomar decisões.

Conforme ela, esses mecanismos podem ser desenvolvidos desde a infância por meio de práticas pedagógicas estruturadas e de atividades cotidianas.

A partir desse ponto, Kátia reforçou a centralidade dos professores e a necessidade de fortalecer tanto a autonomia quanto a autoridade profissional.

Ela comparou o cenário educacional ao da medicina: “Ninguém imagina um grupo de familiares dizendo ao cirurgião como fazer a operação, mas com professores isso parece ter virado rotina. (…) A gente tem questionado tudo que os professores fazem, ‘desempoderando’ eles”, ponderou.

A especialista também advertiu que o trabalho pedagógico não pode ser guiado por modismos e que os educadores precisam de respaldo para aplicar abordagens fundamentadas em evidências.

Para ela, a neurociência oferece justamente esse alicerce: do lado dos estudantes, ajuda a tornar o estudo mais estratégico; do lado dos professores, amplia repertórios e reduz práticas que a ciência já demonstrou ter baixo impacto, mas que ainda persistem apenas por tradição.

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