Cientista político da USP defende reforma profunda na democracia brasileira

Segundo Álvaro Moisés, o sistema político nacional atravessa uma crise prolongada marcada pela ausência de lideranças capazes de articular consensos, lacuna deixada após a geração de estadistas que conduziram a redemocratização.

Por Editoria Democracias

Durante o programa “WW Especial”, exibido pela CNN Brasil no último domingo (22h), o cientista político José Álvaro Moisés, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), afirmou que a democracia brasileira não precisa de salvadores, mas sim de uma reforma estrutural para superar entraves históricos e se tornar mais eficiente.

Segundo Moisés, o sistema político nacional atravessa uma crise prolongada marcada pela ausência de lideranças capazes de articular consensos, lacuna deixada após a geração de estadistas que conduziram a redemocratização.

“Nós não precisamos de salvadores, nós precisamos reformar a democracia para fazê-la funcionar melhor. Reformar no sentido do que não está funcionando bem no Brasil”, declarou o cientista político.

Colapso do presidencialismo de coalizão

Coordenador do grupo de pesquisa “Qualidade da Democracia”, Moisés destacou que o modelo de presidencialismo praticado no Brasil apresenta sinais de esgotamento. Ele lembrou que, ao longo da história republicana, o país já enfrentou crises graves: um presidente que se suicidou, outro que renunciou e outro que foi deposto.

Nos últimos 30 anos, ressaltou, dois impeachments reforçaram a percepção de que o sistema não funciona de maneira estável. Amparado nas análises do cientista político espanhol Juan Linz (1926-2013), Moisés argumentou que a rigidez do presidencialismo brasileiro deixa poucas alternativas diante de crises institucionais: ou se aguarda o término do mandato — prolongando o impasse — ou se recorre ao impeachment, processo que divide a sociedade e não resolve o problema de fundo.

Crise de representação política

Outro ponto central levantado pelo professor da USP é a sensação de afastamento da sociedade em relação ao sistema representativo.

“As pessoas não se sentem representadas. Os partidos políticos, com raras exceções, são muito esvaziados, se comportam mais como organizações que buscam benefícios do que como instrumentos voltados ao bem comum”, criticou.

Para ele, a fragilidade partidária e a falta de compromisso com interesses coletivos intensificam a alienação política da população.

O papel dos militares

Apesar das críticas, Moisés enxerga sinais positivos na postura das Forças Armadas. Segundo ele, a crescente percepção de que os militares não devem intervir na condução política do país representa um avanço importante.

“As próprias corporações estão se dando conta de que não é esse o seu papel e, de alguma maneira, estão sintonizando com a necessidade de a democracia funcionar bem administrada pelos civis, independentes de intervenções”, afirmou.

Debate público necessário

A entrevista conduzida por William Waack reforça o debate sobre a necessidade de ajustes profundos no modelo político brasileiro, apontando para a urgência de reformas que fortaleçam a representação, aprimorem o funcionamento das instituições e consolidem a gestão democrática sem dependência de figuras personalistas.

DEMOCRACIAS

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