Liverpool e Lakers valorizam cerca de 1.600% em 20 anos; entenda

As duas maiores negociações recentes do esporte mundial movimentam bilhões e revelam a paixão do torcedor como ativo mais valioso

Por Marcos Pacheco

US$ 12,5 bilhões por um time de basquete e quase US$ 3 bilhões por uma fatia de um clube de futebol. Esses são os valores das duas maiores negociações recentes do esporte mundial, que explicam por que bilionários de todo o planeta estão de olho nas arquibancadas.

Por trás dos cifrões, há um ativo que não entra em nenhum balanço contábil: a paixão do torcedor.

Nos últimos meses, o mercado esportivo passou por duas grandes movimentações. O ex-CEO da The Walt Disney Company Bob Iger e o empresário Joshua Kushner compraram o Los Angeles Lakers pelo valor recorde de US$ 12,5 bilhões.

Já o Liverpool, um dos times mais tradicionais do futebol mundial, vendeu 38% de suas ações por cerca de US$ 2,7 bilhões. Entre os compradores do clube inglês está Jeff Bezos, apontado como o quarto homem mais rico do mundo.

A paixão que ultrapassa fronteiras

Nicholas Burridge é inglês e há mais de 20 anos mora no Rio de Janeiro, distante da cidade do seu time de coração, o Liverpool, da Inglaterra. Com jogos transmitidos via streaming, ele não perde uma partida e consegue passar esse amor de pai para filho.

“As crianças antigamente eram só camisas do Flamengo, time local, e agora 80% deles estão com camisas do Liverpool, do Chelsea, do Barcelona”, afirmou Nicholas. “Com certeza o fato de eles conseguirem ver isso pelo streaming e outros canais aumentou o interesse”, completou.

Do modelo associativo ao corporativo

O caminho para toda essa valorização passou por uma mudança estrutural no mercado esportivo. Antes, os clubes operavam em um modelo associativo, com associados que escolhiam presidentes e dirigentes. Agora, vários deles adotam o modelo corporativo, transformando-se em estruturas empresariais com proprietários e investidores, podendo ser negociados.

No Brasil, a forma mais conhecida desse modelo é a SAF, adotada por times como o Atlético-MG e o Botafogo.

“Na Argentina, os clubes não querem virar empresa, como aconteceu aqui no Brasil com as SAFs. Só que também os clubes argentinos não conseguem mais ser campeões da Libertadores, porque a competição com os clubes brasileiros SAF e não SAF é muito desigual”, destacou Amir Somoggi, sócio-fundador da Sports Value.

Escassez e valorização bilionária

Um jogo de basquete ou futebol se tornou um dos poucos conteúdos que a audiência ainda faz questão de acompanhar em tempo real, tornando o esporte ao vivo uma espécie de ouro para emissoras e anunciantes.

Entre os 20 times de maior faturamento no mundo, 43% da receita vem de patrocínios e outras atividades comerciais, 38% dos direitos de transmissão e apenas 19% dos dias de jogo, segundo levantamento da consultoria Deloitte.

As redes sociais, com jogadores que acumulam milhões de seguidores, também ajudam os clubes a transformar torcidas locais em audiências globais.

Um relatório do banco JP Morgan destaca que existem 1.500 bilionários nos Estados Unidos, mas apenas 200 times profissionais nas sete principais ligas. A quantidade de times icônicos, com milhões de fãs e ainda abertos a investimentos, é infinitamente menor do que o número de empresas negociadas no mercado de ações de Nova York.

Essa escassez explica por que Lakers e Liverpool tiveram uma valorização de cerca de 1.600% em 20 anos, enquanto o principal índice da Bolsa Americana subiu 320% no mesmo período.

Torcedores torcem pelos investimentos, mas cobram paixão

Para os torcedores, a expectativa é que as cifras bilionárias se traduzam em conquistas esportivas. “Se eles conseguem ajudar o clube a aumentar essa receita, só pode ser bom para o Liverpool, porque aumenta a nossa capacidade de atrair talento, pagar salários melhores, pegar o melhor técnico”, avaliou Nicholas.

Ao explorar esse novo mercado, os fãs torcem para que os investidores bilionários não percam de vista o que ele tem de mais genuíno e potente: a paixão pelo esporte. “O torcedor fica naquela dúvida: é melhor manter o contato com a coletividade e não ser campeão, ou ter meu magnata de estimação para que eu possa também ser campeão”, resumiu Somoggi.

Com título ou sem título, com bilionários ou sem eles, para Nicholas e Lucas, o amor pelo Liverpool supera tudo — e esse vínculo entre time e torcida tem um valor inestimável.

DEMOCRACIAS

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