Injeção de R$ 122 bilhões na economia é “salvo-conduto” para o PIB de 2026

PIB de 2025 deve confirmar desaceleração a ser reprisada em 2026 e 2027, mas programas como reforma do IR, consignado privado, Reforma Casa Brasil, Luz do Povo e Gás do Povo amparam atividade

Por Editoria Democracias

O IBGE encerra “formalmente” 2025 na terça-feira, 3 de março, ao anunciar o Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre e do ano passado. Sem surpresas. A estatística é uma foto do passado, como de praxe, e confirmará a desaceleração da economia. Mas nem tudo está perdido. O Brasil tem “salvo-conduto” em 2026.

Medidas tomadas pelo governo nos últimos meses, de estímulo à renda e ao crédito, deverão injetar R$ 122,20 bilhões na economia e garantir 0,90% do PIB deste ano – quase a metade do previsto pelo mercado. Quem calcula é Rodolfo Margato, sócio e economista da XP.

Ele relata que esse será o saldo combinado de iniciativas e programas de transferência de renda já anunciados: isenção de Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil/mês, crédito consignado privado, Reforma Casa Brasil, Move Brasil, expansão do Minha Casa Minha Vida, Luz do Povo e Gás do Povo.

Nada menos que R$ 88 bilhões, 72% do total estimado, virão da reforma do IR, do consignado e do Reforma Casa Brasil. E darão suporte à atividade, na avaliação de Margato, para quem a economia avançará 2,3% em 2025 e 2% neste ano.

Há meses, bancos e consultorias dedicam particular atenção a 2026 e 2027, saideira de Lula 3.0 e primeiro ano do próximo governo, mas sem descartar novidades consideradas “populistas” nos próximos meses – caso da redução da jornada de trabalho 6×1 que poderá ser “compensada” por desoneração da folha e a gratuidade no transporte público a custo estimado em R$ 90 bilhões ao ano pela Confederação Nacional do Transporte (CNT).

Já a inclusão de 2027 nos cenários econômicos vem acompanhada, invariavelmente, de um alerta sobre a política fiscal que, nos moldes atuais do arcabouço vigente, não irá prosperar. Essa é a mensagem concisa, porém insistente, do mercado financeiro para o presidente Lula e concorrentes ao Palácio do Planalto em outubro.

Apesar da mensagem, são mínimas as apostas quanto à mudança de rota das contas públicas ou à sinalização – mesmo durante a campanha eleitoral – de que o “futuro” governante tratará de estabilizar a dívida em proporção do PIB. E por uma razão: a estabilização da dívida exigirá a obtenção de superávit primário de cerca de 2% do PIB que, se perseguido, cobrará da próxima administração corte de despesas.

Contexto que impõe como necessária uma providência espinhosa: revisão da política de valorização do salário mínimo, medida que causou o maior impacto na trajetória das despesas, dada a vinculação das aposentadorias e benefícios sociais, como Benefício de Prestação Continuada (BPC), abono salarial e seguro-desemprego.

Apesar das críticas, Lula 3.0 cumpre a meta fiscal ancorada em arrecadação e receitas extraordinárias. Redução de gastos, nem pensar. Mas o “conforto” assegurado por cumprimento de metas será comprometido se a desaceleração da atividade for intensificada.

Brasil não “decola” por taxa de juro

O governo cumpriu as metas fiscais de 2024 e 2025, mas o “sucesso” da empreitada foi alcançado com o uso da margem de tolerância que admite déficit de 0,25% do PIB e com a exclusão de despesas da apuração dos resultados. Sem o uso de excepcionalidades fiscais, ainda que previstas, o crescimento faz diferença.

Em 2023, o PIB cresceu 3,2% e, em 2024, 3,4%. Para 2025, as expectativas apontam expansão entre 2,1% e 2,3%; para 2026, de 1,5% a 2%; e, para 2027, de 1% a 2%. Para o quarto trimestre, projeções variam de queda de 0,1% a alta de 0,1% sobre o período anterior quando o PIB cresceu 0,1%.

O dado trimestral deve confirmar, portanto, estagnação da atividade no segundo semestre, período em que a restrição imposta pela Selic a 15% chegou ao ápice. E é ilusão esperar que, agora na ponta do lance, o ciclo de baixa do juro será suficiente para promover crescimento consistente. Contudo, mais estragos podem acontecer.

Juro para conter a inflação e suas expectativas é razão central a justificar porque a economia não “decolou” em 2025, avalia a Coface Brasil – braço da Coface francesa líder global de seguro de crédito presente em mais de 100 países.

“O juro limitou e limita a expansão do consumo mais dependente das condições de crédito e tem efeito também sobre os investimentos pelo alto custo de capital”, observa ao NeoFeed Patrícia Krause, economista-chefe para a América Latina que prevê expansão do PIB brasileiro em 2,2% em 2025 e 1,9% em 2026.

Para 2027, a expectativa não é sobre atividade, mas sobre a política fiscal. “Independentemente de quem assumir o governo em 2027, a dinâmica das contas públicas precisa ser revisitada para conter o avanço da dívida pública”, afirma Krause.

O crescimento previsto para o Brasil está alinhado à projeção média para a região. Mas a expansão tem ritmo diferenciado em 2025. No México, cita a economista, o crescimento foi bem mais fraco, de 0,8%, sobretudo pelas incertezas relacionadas à política comercial dos EUA, que afetaram os investimentos. Na Argentina, o PIB deve ter avançado 4,4%, impulsionado por base de comparação deprimida, após a recessão de 2023/2024, e pela melhora do consumo das famílias e pelos investimentos.

Para Krause, o Brasil não sofreu impacto negativo relevante da política comercial de Trump: o alcance das exportações brasileiras para os EUA representa apenas 1,7% do PIB e pela capacidade do País de redirecionar suas vendas para outros mercados.

De olho no custo do dinheiro nos mercados locais, a Coface alerta para a deterioração da capacidade de pagamento e aumento do risco de crédito como principal foco de atenção em 2026. A pressão sobre pequenas e médias empresas acena com insolvência acima do nível pré-pandemia.

DEMOCRACIAS

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